
Crónica de um dia de produtividade nacional
Crónica de um dia de produtividade nacional
Ainda não conseguiu desabituar-se e levanta-se às sete da manhã. Acorda a
mulher e a filha. Por graça, nos primeiros dias, levava-lhes café com leite à
cama. Agora grita para dentro dos quartos um "está na hora!" e segue para a
cozinha, para ferver os dois líquidos que elas, atrasadas crónicas, muitas vezes
nem bebem.
Liga o computador. Dá uma volta pelos sites de anúncios. Nada. Vê os e-mails.
Nada. Liga a televisão. Vê muitas notícias agora, muitas mais do que costumava,
viciado nesta novela de vida real: há bons e maus da fita, há famílias ricas e
famílias pobres, protagonistas que conspiram, personagens secundárias rebeldes,
enredos tortuosos, luta pelo poder, crime, corrupção, traição e um final que
nunca mais chega.
Vai para a casa de banho. "Enquanto fizer a barba todos os dias estou bem!"
Repete este pensamento, frente ao espelho, a deslizar automaticamente a lâmina
pela cara coberta de espuma, enquanto aguça o olhar para confirmar as olheiras
que lhe marcam a idade.
Decide correr. Sai em fato de treino. Tem um pouco de vergo-nha da barriga,
cinquentona, mas avança ao lado do tráfego automóvel que, repara, todos os dias
diminui.
Volta suado e mete-se no duche. Vai para a sala. Liga outra vez o PC. Passa
horas no computador, entretido a fazer coisa alguma pelo Facebook, pelos sites
de jornais, a trocar e-mails com anedotas, a jogar Solitaire ou a procurar novas
receitas, agora que passou a cozinheiro oficial da família.
Amanhã tem de ir ao centro de emprego. Faz uma sandes, tira uma cerveja do
frigorífico e volta para o computador, para preparar essa sessão de humilhação
frente ao Estado. Ainda tem direito a uns meses de subsídio, mas precisa de
demonstrar que procura trabalho. No meio de quase uma centena de candidaturas
que apresentou, do quase milhar de currículos que enviou, conseguiu apenas uma
entrevista onde ouviu um "temos muita pena, mas o senhor tem qualificações a
mais para esta função". Pensa, às vezes, abrir um negócio. "Talvez exportar
pastéis de nata", brinca consigo próprio embora, mais a sério, recorde uma ideia
sobre artigos em ferro forjado que acha genial mas não sabe como pôr de pé.
Vai ao café por debaixo da casa. Lê o jornal que lá está e bebe a bica, a
única despesa que faz. Em casa, de novo, olha para a TV e pensa no tédio, o pior
de tudo...
Faz o jantar. Às 20.00, a mulher e a filha já voltaram e ele brinca com elas,
aproveita a noite, a melhor parte do dia. Ouve, no Telejornal - são mais de um
milhão e 200 mil desempregados em Portugal... "Tantos? Coitados!", pensa,
esquecendo-se, distraído, de si próprio.
mulher e a filha. Por graça, nos primeiros dias, levava-lhes café com leite à
cama. Agora grita para dentro dos quartos um "está na hora!" e segue para a
cozinha, para ferver os dois líquidos que elas, atrasadas crónicas, muitas vezes
nem bebem.
Liga o computador. Dá uma volta pelos sites de anúncios. Nada. Vê os e-mails.
Nada. Liga a televisão. Vê muitas notícias agora, muitas mais do que costumava,
viciado nesta novela de vida real: há bons e maus da fita, há famílias ricas e
famílias pobres, protagonistas que conspiram, personagens secundárias rebeldes,
enredos tortuosos, luta pelo poder, crime, corrupção, traição e um final que
nunca mais chega.
Vai para a casa de banho. "Enquanto fizer a barba todos os dias estou bem!"
Repete este pensamento, frente ao espelho, a deslizar automaticamente a lâmina
pela cara coberta de espuma, enquanto aguça o olhar para confirmar as olheiras
que lhe marcam a idade.
Decide correr. Sai em fato de treino. Tem um pouco de vergo-nha da barriga,
cinquentona, mas avança ao lado do tráfego automóvel que, repara, todos os dias
diminui.
Volta suado e mete-se no duche. Vai para a sala. Liga outra vez o PC. Passa
horas no computador, entretido a fazer coisa alguma pelo Facebook, pelos sites
de jornais, a trocar e-mails com anedotas, a jogar Solitaire ou a procurar novas
receitas, agora que passou a cozinheiro oficial da família.
Amanhã tem de ir ao centro de emprego. Faz uma sandes, tira uma cerveja do
frigorífico e volta para o computador, para preparar essa sessão de humilhação
frente ao Estado. Ainda tem direito a uns meses de subsídio, mas precisa de
demonstrar que procura trabalho. No meio de quase uma centena de candidaturas
que apresentou, do quase milhar de currículos que enviou, conseguiu apenas uma
entrevista onde ouviu um "temos muita pena, mas o senhor tem qualificações a
mais para esta função". Pensa, às vezes, abrir um negócio. "Talvez exportar
pastéis de nata", brinca consigo próprio embora, mais a sério, recorde uma ideia
sobre artigos em ferro forjado que acha genial mas não sabe como pôr de pé.
Vai ao café por debaixo da casa. Lê o jornal que lá está e bebe a bica, a
única despesa que faz. Em casa, de novo, olha para a TV e pensa no tédio, o pior
de tudo...
Faz o jantar. Às 20.00, a mulher e a filha já voltaram e ele brinca com elas,
aproveita a noite, a melhor parte do dia. Ouve, no Telejornal - são mais de um
milhão e 200 mil desempregados em Portugal... "Tantos? Coitados!", pensa,
esquecendo-se, distraído, de si próprio.
in: DN
Por: Pedro Tadeu
