quinta-feira, 19 de julho de 2012

Os Relvas

Sobre Miguel Relvas, os comentistas de serviço não hesitam: está politicamente liquidado.
Todavia, não vale a pena refocilar nas tranquibérnias que resvalaram Relvas para o abismo, seja a embrulhada das «secretas», as pressões à jornalista do Público ou a escandaleira da sua pseudo-licenciatura na Lusófona. Para esse repoltreamento aí estão os seus antigos propagandistas que, como de uso, são agora os mais furiosos juízes. Já lá vai o tempo em que este ministro adjunto e dos Assuntos Parlamantares era assinalado, em irreprimíveis encómios, como «o arquitecto» da vitória passista e «o cérebro» da sua governação...
O que interessa é que Relvas se tornou paradigma do sarcasmo nacional no que se refere à apreciação popular dos «políticos profissionais».
«São todos uns vigaristas», diz a vox populi, sem mais delongas.
A vigarice «faz parte da genética nacional», defendem os entendidos na matéria, que geralmente acarreiam ilustrações da actividade político-privada da actualidade para as diluir nesta «pecha ancestral» da vigarice, cuja «fatalidade» parece, se não inocentar toda a gente, pelo menos desagravar a generalidade.
É assim que os Isaltinos Morais e as Fátimas Felgueiras, os Jorges Coelho e os Ferreiras do Amaral, os Dias Loureiro e os Miras Amaral, os Carlos Melancia e os Avelino Torres, os José Sócrates e os Miguel Relvas deste País fatal (para só falarmos de proeminentes, que a lista seria interminável) circulam por aí, impolutos e inimputáveis, de rosto erguido e honra acabadinha de sair do banho, mas, sobretudo, muito, mas muito melhor na vida do que no início das fortunosas funções públicas.
Os que foram levados a tribunal viram sempre «fazer-se justiça» a seu favor, os que transitaram desavergonhadamente de cargo oficial para a direcção de grandes empresas privadas por si próprios tuteladas enquanto governantes - ou tachos afins -, afirmam, com alvar displicência, que «estão de consciência tranquila» e os que até cursos traficaram, juram a pés juntos que «sempre cumpriram a lei».
Obviamente, são todos cidadãos acima de suspeita.
Mas o «caso Relvas» serve de epítome à chamada «classe política» que desgoverna o País há 36 anos, toda ela recrutada no PS, no PSD e, quando convém, no CDS.
Ao longo desse desgoverno, os «Relvas» proliferaram como ervas daninhas, enquanto os partidos do famoso «arco do poder» iam capturando o aparelho de Estado através da apropriação do «jogo democrático» burguês.
Foi assim que PS e PSD, alternando fraternalmente no Governo, foram desmontando as alavancas do poder instituído pela Revolução de Abril, para as e o devolver ao grande capital. Basicamente, como no fascismo.
Não é, de facto, por acaso que a vox populi chama vigaristas a esta gente.
Gente que não é «vigarista» por fatalidade nacional, pois a vigarice não é «fatalidade» de nenhum povo: é fruto directo das desigualdades sociais impostas pela exploração capitalista.
Esta gente pertence, simplesmente, à linhagem dos «Relvas».


Henrique Custódio
Avante nº 2.016

terça-feira, 17 de julho de 2012

25 de Abril







No Tortosendo, houve comemorações do 25 de Abril.
Choveu, choveu muito, mas os tortosendenses sairam à rua para comemorar o dia que derrubou o fascismo.
Organizadas pela Comissão de Freguesia de Tortosendo do PCP realizaram-se, na Escola Básica do Tortosendo, com bastante adesão popular, as comemorações do 38º aniversário da Revolução que derrubou o regime fascista de Salazar e Caetano.
As fotos ilustram alguns momentos das comemorações.

“Congresso Democrático das Alternativas”



"Resgatar Portugal para um futuro decente"

“Envolver a Sociedade Civil”

5 de outubro de 2012

São, na generalidade, pessoas bem instaladas na vida, com elevados graus académicos e investigadores de méritos reconhecidos. Alguns são denodados estudiosos dos movimentos da classe trabalhadora com o interesse e a curiosidade do biólogo debruçado sobre os instrumentos de trabalho e que, análise feita, publicita em revistas da especialidade os resultados do seu labor. Podem aparecer como observadores nas manifestações de protesto, tomando notas sobre o comportamento da plebe insatisfeita, sem nunca levantar a voz e muito menos o punho. De discurso fluente, olham com displicência os que com dificuldade expõem os seus anseios e propósitos. Já ouviram falar da fome e concluíram, após aprofundada investigação não experimental, que deve ser difícil de suportar e supõem que viver com o salário mínimo não será fácil. Como sempre acontece, há as exceções que dão ainda mais visibilidade à regra.



De trajetória partidária instável, vão procurando com mais ou menos visibilidade o seu nicho de classe. E, falsos modestos, procuram dissimular a atração pelas luzes da ribalta que lhes iluminam o protagonismo e nutrem o ego. Se os mídia, nomeadamente a televisão, por distração os ignora, o que raramente acontece, sentem-se descriminados e insurgem-se com vigor.



O desemprego alastra e a miséria e outras ameaças daí decorrentes começam a galgar as ameias dos seus castelos de conforto que supunham invioláveis. Por mais bizarro que nos possa parecer, muitos dos signatários de um tal “programa”, recentemente divulgado, têm participado no crime social contra o qual, supostamente, e só agora se insurgem, e outros há que assistiram a todas as maquinações a que temos estado sujeitos sem expressarem a mínima perturbação.



Os protagonistas promotores destas manifestações cíclicas encontram-se emparedados entre os grandes senhores que, desde sempre, vêm servindo, mas que já não lhes oferecem total confiança, e aqueles que denominam por desprotegidos e que cada vez mais engrossam a revolta, que se revoltem, pois, é natural que assim seja e até lhes pode servir, mas que nunca o façam de modo organizado seria relegá-los para um humilhante plano secundário, e, lá do alto dos seus profundos conhecimentos, na maioria são professores universitários, têm dificuldade em admitir que os trabalhadores se consigam emancipar sem que por eles sejam conduzidos.



Nos meses de verão desarticulam-se as movimentações de protesto mas continua a levedar a indignação, e aproveitando este afrouxar, o patronato e os governadores do protectorado em que vivemos, dão mais umas voltas no garrote dos que já mal podem respirar. Setembro é o mês das famílias fazerem o balanço dos “deve e haver” e, cercadas no lamaçal para onde as arrastaram, procuram libertar-se.



É certo que, na sua quase totalidade, os signatários do programa, uma espécie de apanha-moscas nas antigas mercearias de bairro, não sabem o que seja uma greve e nem calculam o esforço necessário para a organizar ou os riscos que correm aqueles que nela participam. No entanto, estas vibrações são sentidas nos meios intelectuais atentos ao pulsar social, e no ambíguo e amplo leque ideológico e sensibilidades díspares, soa o toque a reunir e, despertos, cada qual à sua maneira, respondem à chamada. Mas ao surgir o toque de avançar ninguém sabe para onde nem como acionar os seus ímpetos e, mais uma vez, regressam a penates sem nem sequer se sentirem frustrados, porque habituados estão às suas inconsequências. Quantas siglas já se evaporaram neste curto espaço histórico?



O “projecto para envolver a sociedade civil”, repleto de doutoslugares-comuns, é um “programa” raso, que nos mostra a intensidade das preocupações expostas e as expetativas vazias de conteúdo. "Resgatar Portugal para um futuro decente"… mais que um programa é um suspiro.



Desde que me conheço nestas lides, que observo as andanças de gente cansada de se preocupar com os males que desde sempre nos afligiram. Apresentam os seus manifestos radicais ou insípidos em função da conjuntura, e partem de férias, porque isto de lutar contra o fascismo ou o neo-fascismo é entretenimento que dá gozo discutir numa sombra acolhedora com um branco seco geladinho e uns percebes e regressar ao “combate” ainda bronzeados e com um cheirinho a maresia.



Isto de fazer parte e ter uma sólida base de apoio numa classe habituada a enfrentar dificuldades e a ser estigmatizada não é tarefa fácil.



Quando destruíram a reforma agrária e de seguida todo o nosso tecido industrial, os operários industriais e agrícolas e as suas organizações lutaram sós até ao último fôlego.



Hoje são os professores, bancários, médicos, advogados que veem os seus postos de trabalho em risco ou não encontram futuro para os seus filhos.

O já badalado “Congresso” está anunciado para outubro, mês de grandes explosões sociais, momento ideal para se discutir como "Resgatar Portugal para um futuro decente" e, mais uma vez, ficar por aí.

Curiosamente, poucos dias antes do anunciado “Congresso”, o Arnaldo Matos voltou à ribalta.



É curioso!...



Publicada porcid simoes

Em: AS PALAVRAS SÃO ARMAS

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Islândia - versus censura


PORQUÊ O SILÊNCIO SOBRE A ISLÂNDIA?
Se há quem acredite que nos dias de hoje não existe censura, então que nos esclareça porque é ficámos a saber tanta coisa acerca do que se passa no Egipto e porque é que os jornais não têm dito absolutamente nada sobre o que se passa na Islândia.
Na Islândia:
- o povo obrigou à demissão em bloco do governo;
- os principais bancos foram nacionalizados e foi decidido não pagar as dívidas que eles tinham contraído junto dos bancos do Reino Unido e da Holanda, dívidas que tinham sido geradas pelas suas más políticas financeiras;
- foi constituída uma assembleia popular para reescrever a Constituição.
Tudo isto pacificamente.
Uma autêntica revolução contra o poder que conduziu a esta crise. E aí está a razão pela qual nada tem sido noticiado no decurso dos últimos dois anos. O que é que poderia acontecer se os cidadãos europeus lhe viessem a seguir o exemplo?
Sinteticamente, eis a sucessão histórica dos factos:
- 2008: o principal banco do país é nacionalizado. A moeda afunda-se, a Bolsa suspende a actividade. O país está em bancarrota.
- 2009: os protestos populares contra o Parlamento levam à convocação de eleições antecipadas, das quais resulta a demissão do primeiro-ministro e de todo o governo.
A desastrosa situação económica do país mantém-se.
É proposto ao Reino Unido e à Holanda, através de um processo legislativo, o reembolso da dívida por meio do pagamento de 3.500 milhões de euros, montante suportado mensalmente por todas as famílias islandesas durante os próximos 15 anos, a uma taxa de juro de 5%.
- 2010: o povo sai novamente à rua, exigindo que essa lei seja submetida a referendo.
Em Janeiro de 2010, o Presidente recusa ratificar a lei e anuncia uma consulta popular.
O referendo tem lugar em Março. O NÃO ao pagamento da dívida alcança 93% dos votos.
Entretanto, o governo dera início a uma investigação no sentido de enquadrar juridicamente as responsabilidades pela crise.
Tem início a detenção de numerosos banqueiros e quadros superiores.
A Interpol abre uma investigação e todos os banqueiros implicados abandonam o país.
Neste contexto de crise, é eleita uma nova assembleia encarregada de redigir a nova Constituição, que acolha a lições retiradas da crise e que substitua a actual, que é uma cópia da constituição dinamarquesa.
Com esse objectivo, o povo soberano é directamente chamado a pronunciar-se.
São eleitos 25 cidadãos sem filiação política, de entre os 522 que apresentaram candidatura. Para esse processo é necessário ser maior de idade e ser apoiado por 30 pessoas.
- A assembleia constituinte inicia os seus trabalhos em Fevereiro de 2011 a fim de apresentar, a partir das opiniões recolhidas nas assembleias que tiveram lugar em todo o país, um projecto de Magna Carta.
Esse projecto deverá passar pela aprovação do parlamento actual bem como do que vier a ser constituído após as próximas eleições legislativas.
Eis, portanto, em resumo a história da revolução islandesa:
- Demissão em bloco de um governo inteiro;
- Nacionalização da banca;
- Referendo, de modo a que o povo se pronuncie sobre as decisões económicas fundamentais;
- Prisão dos responsáveis pela crise e
- reescrita da Constituição pelos cidadãos:
Ouvimos falar disto nos grandes media europeus?
Ouvimos falar disto nos debates políticos radiofónicos?
Vimos alguma imagem destes factos na televisão?
Evidentemente que não!
O povo islandês deu uma lição à Europa inteira, enfrentando o sistema e dando um exemplo de democracia a todo o mundo.

Theo Buss
Rue du Doubs 117
2300 La Chaux-de-Fonds
Tél. 0041 (0)32 558 7903


ODiario.info :: http://www.odiario.info


terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Dos jornais

Crónica de um dia de produtividade nacional
Crónica de um dia de produtividade nacional
Crónica de um dia de produtividade nacional
Ainda não conseguiu desabituar-se e levanta-se às sete da manhã. Acorda a
mulher e a filha. Por graça, nos primeiros dias, levava-lhes café com leite à
cama. Agora grita para dentro dos quartos um "está na hora!" e segue para a
cozinha, para ferver os dois líquidos que elas, atrasadas crónicas, muitas vezes
nem bebem.
Liga o computador. Dá uma volta pelos sites de anúncios. Nada. Vê os e-mails.
Nada. Liga a televisão. Vê muitas notícias agora, muitas mais do que costumava,
viciado nesta novela de vida real: há bons e maus da fita, há famílias ricas e
famílias pobres, protagonistas que conspiram, personagens secundárias rebeldes,
enredos tortuosos, luta pelo poder, crime, corrupção, traição e um final que
nunca mais chega.
Vai para a casa de banho. "Enquanto fizer a barba todos os dias estou bem!"
Repete este pensamento, frente ao espelho, a deslizar automaticamente a lâmina
pela cara coberta de espuma, enquanto aguça o olhar para confirmar as olheiras
que lhe marcam a idade.
Decide correr. Sai em fato de treino. Tem um pouco de vergo-nha da barriga,
cinquentona, mas avança ao lado do tráfego automóvel que, repara, todos os dias
diminui.
Volta suado e mete-se no duche. Vai para a sala. Liga outra vez o PC. Passa
horas no computador, entretido a fazer coisa alguma pelo Facebook, pelos sites
de jornais, a trocar e-mails com anedotas, a jogar Solitaire ou a procurar novas
receitas, agora que passou a cozinheiro oficial da família.
Amanhã tem de ir ao centro de emprego. Faz uma sandes, tira uma cerveja do
frigorífico e volta para o computador, para preparar essa sessão de humilhação
frente ao Estado. Ainda tem direito a uns meses de subsídio, mas precisa de
demonstrar que procura trabalho. No meio de quase uma centena de candidaturas
que apresentou, do quase milhar de currículos que enviou, conseguiu apenas uma
entrevista onde ouviu um "temos muita pena, mas o senhor tem qualificações a
mais para esta função". Pensa, às vezes, abrir um negócio. "Talvez exportar
pastéis de nata", brinca consigo próprio embora, mais a sério, recorde uma ideia
sobre artigos em ferro forjado que acha genial mas não sabe como pôr de pé.
Vai ao café por debaixo da casa. Lê o jornal que lá está e bebe a bica, a
única despesa que faz. Em casa, de novo, olha para a TV e pensa no tédio, o pior
de tudo...
Faz o jantar. Às 20.00, a mulher e a filha já voltaram e ele brinca com elas,
aproveita a noite, a melhor parte do dia. Ouve, no Telejornal - são mais de um
milhão e 200 mil desempregados em Portugal... "Tantos? Coitados!", pensa,
esquecendo-se, distraído, de si próprio.
in: DN
Por: Pedro Tadeu

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O Pobre Cavaco




A pátria, estarrecida, assistiu, nos últimos dias, à declaração de pobrezado Dr. Cavaco, e aos ecos dessa amarga e pungente confissão. O gáudio e o apoucamento, a crítica e a repulsa foram as tónicas dominantes das emoções.Os blogues, aos milhares, encheram-se de inauditos gozos, e a Imprensa,grave e incomodada, não deixou de zurzir no pobre homem. Programas de entretenimento matinal, nas tevês, transformaram o coitado num lázaro irremissível. Até houve um peditório, para atenuar as suas preocupações de subsistência, com donativos entregues no Palácio de Belém. Porém, se nos detivermos, por pouco que seja, no Dr. Cavaco e na sua circunstância notaremos que ele sempre assim foi: um portuguesinho no Portugalinho. Lembremo-nos desse cartaz hilariante, aposto em tudo o que era muro ou parede, e no qual ele aparecia, junto de um grupo de enérgicos colaboradores, sob o extraordinário estribilho: "Deixem-nos trabalhar!"Cavaco governava pela primeira vez e os publicitários colocaram-no e aos outros em mangas de camisa arregaçadas. Os humoristas de serviço rilharam os dentes, de gozo, mas a época não era propícia à ironia. O País tornou-se numa espécie de imagem devolvida do primeiro-ministro: hirto, um espequerígido, liso, um carreirinho de gente cabisbaixa.O respeitinho é muito lindo: essa marca d'água do salazarismo regressava para um país que perdera a noção do riso, se é que alguma vez o tivera.Cavaco resulta desse anacronismo que fede a mofo e a servidão. É um sujeito de meia-tigela, inculto, ignorante das coisas mais rudimentares, iletrado e, como todos os iletrados, arrojado nas afirmações momentâneas. As suas"gaffes" fazem história no anedotário nacional. É um Américo Tomás tão despropositado, mas tão perigoso como o original. Manhoso, soube aproveitar o momento vazio, no rescaldo de uma revolução que também acabou no vazio. Os rios de dinheiro provindos de Bruxelas, e perdulariamente gastos, durante os infaustos anos dos seus mandatos, garantiram-lhe um lugar de aplauso nas consciências desprotegidas dos portugueses. Este apagamento da verdade está inscrito, infelizmente, numa Imprensa servida por estipendiados, cuja virtude era terem o cartão do partido. Ainda hoje essa endemia não foi extirpada. Repare-se que, fora alguns escassos casos isolados, ainda não foi feita a crítica aos anos de Cavaco e das suas trágicas consequências políticas, ideológicas, morais e sociais. Há uma falta de coragem quase generalizada, creio que explicada pela teia reticular de cumplicidades, envolvendo poderes claros e ocultos. A mediocridade da personagem é cada vez mais evidente. E se, no desempenhodas funções de primeiro-ministro, foi sustentado pela falsa aparência de eldourado, devido aos dinheiros da Europa, generosamente distribuídos poramigos e prosélitos, como Presidente da República é uma calamidadeafrontosa. Tornou o lugar desacreditante e desacreditado.Logo no primeiro dia da sua entrada no palácio de Belém, o ridículo até tevemúsica. Um país espavorido assistiu, pelas televisões, sempre zelosas eapressuradas, àquela cena do Dr. Cavaco, mãos dadas com toda a família, asubir a rampa que conduz ao Pátio dos Bichos, e ao interior do edifício. Umpalácio que não merecia recolher tal inquilino. Mas ele é mesmo assim: umportuguesinho no Portugalinho, um inesperadamente afortunado algarvio, semhistória nem grandeza, impelido para o seu peculiar paraíso. A imagem dasubida da ladeira possui algo de ascensão ao Olimpo, com aquelas figurasmuito felizes, impantes, formais, intermináveis. Mas há nisto um panteísmomarcadamente ingénuo e tolo, muito colado a certa maneira de serportuguesinho e pobrezinho: tudo em inho, pequenininho, redondinho.Cavaco nunca deixou de ser o que era. Até no sotaque que não perdeu e o levaa falar num idioma desajeitado; no inábil que é; no piroso corte de cabelo àCary Grant; no embaraço que sente quando colocado junto de multidões ou depessoas que ele entende serem-lhe "superiores." Repito: ele não dispõe de umestofo de estadista, e muito menos da condição exigida a um Presidente daRepública.O discurso da sua pobreza resulta de todas essas anomalias de espírito. Eletem sido um malefício para o País. É ressentido, rancoroso, vingativo,possidónio e brunido de mente. Mas não posso deixar de sentir, por estepobre homem, uma profunda compaixão e uma excruciante piedade.A pátria, estarrecida, assistiu, nos últimos dias, à declaração de pobrezado
Dr. Cavaco, e aos ecos dessa amarga e pungente confissão. O gáudio e oapoucamento, a crítica e a repulsa foram as tónicas dominantes das emoções.Os blogues, aos milhares, encheram-se de inauditos gozos, e a Imprensa,grave e incomodada, não deixou de zurzir no pobre homem.
Programas de entretenimento matinal, nas tevês, transformaram o coitado num lázaroirremissível. Até houve um peditório, para atenuar as suas preocupações desubsistência, com donativos entregues no Palácio de Belém. Porém, se nosdetivermos, por pouco que seja, no Dr. Cavaco e na sua circunstâncianotaremos que ele sempre assim foi: um portuguesinho no Portugalinho.Lembremo-nos desse cartaz hilariante, aposto em tudo o que era muro ouparede, e no qual ele aparecia, junto de um grupo de enérgicoscolaboradores, sob o extraordinário estribilho: "Deixem-nos trabalhar!"Cavaco governava pela primeira vez e os publicitários colocaram-no e aosoutros em mangas de camisa arregaçadas. Os humoristas de serviço rilharam osdentes, de gozo, mas a época não era propícia à ironia. O País tornou-senuma espécie de imagem devolvida do primeiro-ministro: hirto, um espequerígido, liso, um carreirinho de gente cabisbaixa.O respeitinho é muito lindo: essa marca d'água do salazarismo regressavapara um país que perdera a noção do riso, se é que alguma vez o tivera.Cavaco resulta desse anacronismo que fede a mofo e a servidão. É um sujeitode meia-tigela, inculto, ignorante das coisas mais rudimentares, iletrado e,como todos os iletrados, arrojado nas afirmações momentâneas. As suas"gaffes" fazem história no anedotário nacional. É um Américo Tomás tãodespropositado, mas tão perigoso como o original.Manhoso, soube aproveitar o momento vazio, no rescaldo de uma revolução quetambém acabou no vazio. Os rios de dinheiro provindos de Bruxelas, eperdulariamente gastos, durante os infaustos anos dos seus mandatos,garantiram-lhe um lugar de aplauso nas consciências desprotegidas dosportugueses. Este apagamento da verdade está inscrito, infelizmente, numaImprensa servida por estipendiados, cuja virtude era terem o cartão dopartido. Ainda hoje essa endemia não foi extirpada. Repare-se que, foraalguns escassos casos isolados, ainda não foi feita a crítica aos anos deCavaco e das suas trágicas consequências políticas, ideológicas, morais esociais. Há uma falta de coragem quase generalizada, creio que explicadapela teia reticular de cumplicidades, envolvendo poderes claros e ocultos.A mediocridade da personagem é cada vez mais evidente. E se, no desempenho das funções de primeiro-ministro, foi sustentado pela falsa aparência de eldourado, devido aos dinheiros da Europa, generosamente distribuídos por amigos e prosélitos, como Presidente da República é uma calamidade afrontosa. Tornou o lugar desacreditante e desacreditado. Logo no primeiro dia da sua entrada no palácio de Belém, o ridículo até teve música. Um país espavorido assistiu, pelas televisões, sempre zelosas e apressuradas, àquela cena do Dr. Cavaco, mãos dadas com toda a família, a subir a rampa que conduz ao Pátio dos Bichos, e ao interior do edifício. Um palácio que não merecia recolher tal inquilino. Mas ele é mesmo assim: um portuguesinho no Portugalinho, um inesperadamente afortunado algarvio, sem história nem grandeza, impelido para o seu peculiar paraíso. A imagem da subida da ladeira possui algo de ascensão ao Olimpo, com aquelas figuras muito felizes, impantes, formais, intermináveis. Mas há nisto um panteísmo marcadamente ingénuo e tolo, muito colado a certa maneira de ser portuguesinho e pobrezinho: tudo em inho, pequenininho, redondinho. Cavaco nunca deixou de ser o que era. Até no sotaque que não perdeu e o leva a falar num idioma desajeitado; no inábil que é; no piroso corte de cabelo à Cary Grant; no embaraço que sente quando colocado junto de multidões ou de pessoas que ele entende serem-lhe "superiores." Repito: ele não dispõe de um estofo de estadista, e muito menos da condição exigida a um Presidente da República. O discurso da sua pobreza resulta de todas essas anomalias de espírito. Ele tem sido um malefício para o País. É ressentido, rancoroso, vingativo, possidónio e brunido de mente. Mas não posso deixar de sentir, por este pobre homem, uma profunda compaixão e uma excruciante piedade.
Por:Baptista Bastos - b.bastos@netcabo.pt
27 Janeiro 2012