segunda-feira, 4 de julho de 2011

Os Tróikas




DIGAM LÁ, Ó TRÓIKAS, QUEM É AMIGO, QUEM É ?

É assim a Igreja:
diz-se, em palavras, a favor dos oprimidos - age, de facto, a favor dos opressores;
promete benesses celestiais aos primeiros - favorece a abençoa as benesses terrenas dos segundos.
Com isto, conta sempre com o apoio de uns e dos outros:
os opressores apoiam-na olhando para os cofres; os oprimidos apoiam-na olhando para o céu...
E uns e outros dão graças a Deus quando o papa, o cardeal, o bispo, o padre pregam as virtudes da caridade - perdão: da CARIDADE! - cuja é, como os opressores sabem e os oprimidos desconhecem, a Madre que alimenta toda esta hipocrisia.
E é assim - alimentando-se da fartura de uns; da miséria de outros; e das graças-a-Deus de todos - que a Igreja se vai governando.
E bem!

Vem isto a propósito das palavras ontem proferidas pelo Cardeal Patriarca de Lisboa na procissão do Corpo de Deus - que, segundo os jornais, juntou em Lisboa 10 mil... ia escrever: oprimidos... mas escrevo: pessoas.
(é que os opressores raras vezes vão a estas coisas: eles sabem, desde tempos imemoriais, que tudo o que ali vai ser dito pelo orador de serviço é em seu benefício - e sabem que os oprimidos comparecerão em massa para aplaudir o orador. Ou seja: confiam absolutamente nos desígnios de Deus e dos seus representantes e representados na Terra...)

Então, foi perante um abundante e receptivo auditório, que D. José Policarpo fez o que tinha a fazer: pediu «ajuda para os que têm fome»;
e lembrou que «a Eucaristia é o sacramento da caridade»;
e asseverou que «a comunhão do Corpo de Deus introduz-nos na experiência da caridade»;
e garantiu que «a evangelização é uma exigência da caridade»...
E em verdade vos digo, irmãos - isto digo eu - que, depois disto, não há fome que resista a tanta caridade...

Portanto... há que esperar por ela - perdão: por ELA!
Portanto... sentai-vos, famélicos de Portugal, e orai!

Portanto... digam lá, ó troikas, quem é amigo, quem é?



Por Fernando Samuel, em Cravo de Abril

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Duas marcas

1. A televisão tem estado cheiinha da notícia: aí está ele, o governo. Não um governo qualquer. Nem sequer um qualquer governo de direita. Trata-se de um governo que, emergindo de uma maioria parlamentar absoluta, se prepara não só para ajustar contas com o 25 de Abril mas também para destruir o que dele reste. Há sérias razões para admitir que o País está perante o projecto silencioso, talvez até em certa medida inconsciente de si próprio, de refundar um salazarismo sem Salazar, sem polícia política e sem censura oficial (aliás tornada inútil perante a evidente eficácia das formas actuais de censura instaladas na generalidade dos media dominantes). E a abundante informação que a TV nos fornece acerca do governo Coelho/Portas, como aliás é seu dever fornecer, não tem a mínima preocupação em dourar a pílula amaríssima, se não venenosa, que a Europa dos Ricos prescreveu para administração urgente ao povo português: em nome do interesse nacional, como sempre se faz quando se trata de agredir as populações, vão ser atirados para o desemprego milhares de trabalhadores, vai ser extorquido mais dinheiro aos doentes e aos deficientes, vai ser reduzido por alegada falta de meios o apoio ao milhão e tal de velhos que já se arrasta na pobreza E não sou eu quem o diz ou aqui o inventa: foi a TV que nos últimos dias me veio ensinando isto e muito mais, numa quase alegre profecia fácil das desgraças a que o povo português foi sentenciado.

2. Compreender-se-á, espero, que nestas colunas se dê especial atenção a duas marcas que este governo desde já ostenta e de que se diria serem claras, por óbvias, se não fossem de facto nigérrimas por ilustrarem, além do mais, a sinistra mistura de ódio e medo que através dos tempos a direita sempre arrasta na sua bagagem relativamente à cultura. Não poderá dizer-se, decerto, que ela não tem boas razões para isso: a cultura ilumina e a direita obscurece para confundir, a cultura revela o mundo e a vida enquanto a direita lhes falsifica a imagem, a cultura liberta e a direita oprime. Objectar-se-á talvez que a direita sempre tem contado com gente de boa craveira cultural/intelectual entre os seus. Mas convém saber que essa espécie de situação contranatura decorre da existência de contradições internas na personalidade ou no pensamento das figuras que concretamente ilustram essas situações paradoxais ou de excepção. Nem todos podem ser construídos de uma só peça e a coerência, embora possa acontecer sem grande esforço, não é uma espécie de maná que caia do céu aos trambolhões.

3. As tais duas marcas a que me refiro, escolhendo-as entre outras por terem directamente a ver com as preocupações regularmente abordadas nestas duas colunas, são o projecto de privatização da televisão pública e a extinção do Ministério da Cultura. Até ao momento em que escrevo, não foram prestados ao País quaisquer esclarecimentos acerca do modo e do grau que consubstanciarão a anunciada privatização da TV estatal, sendo contudo muito provável que se trate de entregar a RTP1 a privados. Desde já é possível sublinhar, contudo, duas ou três coisas. A primeira delas será que, com provável excepção para a RTP África, cuja missão poderá talvez ser desempenhada pela RTP Internacional, todos os canais da RTP são necessários para que ela possa cumprir de facto os deveres de serviço público que lhe estão cometidos. A segunda nota será para sublinhar que, como aliás é praticamente consensual, o mercado telepublicitário já não suporta mais um canal concorrente sem que esse facto redunde em grave prejuízo financeiro para todas as operadoras. Por último, é preciso acentuar uma esquecida (ou escamoteada) verdade fundamental: sendo certo que a acção da Radiotelevisão Portuguesa tem estado longe de convergir para o cumprimento de um eficaz serviço público, designadamente na área da promoção e divulgação cultural, é evidente que o remédio para essa gravíssima omissão não é o despedaçamento da empresa ou a amputação dos canais decisivos para o êxito da sua missão. Alegar que para ter uma RTP que falha o seu dever mais valerá que o Estado se desfaça dela é, a menos que se trate de um caso de debilidade mental, uma tentativa um pouco ingénua de enganar as gentes. Mas elas, as gentes, de tanto serem enganadas já perderam um pouco a capacidade para identificarem os vários contos do vigário. Pelo que sempre convém preveni-las. Como agora e aqui se tenta fazer.
Publicada por Sérgio Ribeiro, no anónimo século xxi
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