
É raro o dia que não ouvimos virtuosos comentadores e políticos angustiados com o facto de Portugal ser o país da Europa com maior índice de desigualdades sociais. Durante anos e anos, foi crescendo, ao sabor das políticas, o fosso entre ricos e pobres, um país de contradições e excessos, onde uma minoria tem cada vez mais e uma maioria possui todos os dias um pouco menos. Não é novidade que essa realidade dramática se traduza em números: mais de 300 mil pessoas passam fome.
Há, pois, um mundo crescente de dificuldades e um cerco com pezinhos de lã de infra-humanidade. A desvalorização do trabalho, outra receita que tem sido imposta, coloca largas faixas de trabalhadores no limiar da pobreza. Há quem chame a esta situação, como desabafo inquieto, “mundo cão”.
Mas vivemos num reino velho sem emenda. Basta ver como, de forma tão natural, se apressaram governantes e agentes económicos a pôr em causa o acordo que prometia, no ano que vem, mais 25 euros, para colocar o salário mínimo na meta dos 500 euros. Logo vieram falar na crise e nas dificuldades das empresas. É um exercício de cinismo. Lamenta-se é que uma ideia que tanto menoriza socialmente o país não tenha desencadeado uma vaga de fundo de indignação.
Há dias, Manuel António Pina escreveu uma notável crónica sobre o assunto (“Uma moedinha para a CIP”) que é, do mesmo passo, um nítido retrato, a preto e branco, do país. Deixo-a aqui, aos meus Leitores, como matéria para ler e pensar:
..........“A "crise" tem constituído para os patrões portugueses uma verdadeira, como por esses lados se diz, "janela de oportunidades". Para investirem e inovarem?, para racionalizarem processos produtivos?, para diversificarem?, para descobrirem novos mercados? Não. A crise tem servido aos patrões portugueses de pretexto para despedimentos em massa e, à portuguesa maneira que é a sua, para a pedinchice lamurienta à porta do Estado enquanto clamam ruidosamente por "menos Estado".
Que despedir é difícil, que fica caro, que pagam muitos impostos, que os custos do crédito e da energia são incomportáveis, & etc.; e que, assim, precisam de mais apoios, de mais subsídios, de mais isenções, de mais bonificações, e de mais todas as formas de ir ao bolso dos contribuintes em que o seu mendicante espírito de iniciativa sempre se revelou, nisso sim, extraordinariamente produtivo.
Agora a crise é também pretexto para não cumprirem o que haviam acordado na Concertação Social, o aumento do Salário Mínimo Nacional de 475 para 500 euros em Janeiro de 2011. Diz (melhor, choraminga) o presidente da CIP que as empresas não têm "condições" para pagar um aumento de 25 euros, isto é, de 82 cêntimos por dia.
Se o patronato da CIP não tem "condições" para suportar o custo de algo como uma bica por dia, estamos falados não só quanto a miserabilismo mas também quanto ao que o país pode esperar da indústria portuguesa”........
Fernando Paulouro Neves
J.F.



